Vem cá, não tenha medo
A água é potável
Daqui você pode beber"
sem descrição

Em três semanas faz dois dias que não me lembro de ter sonhado com ela. O último deixou cenas agradáveis até.
Via nossas sombras misturadas com nossas risadas, dançando na grama de um verde daqueles que só é encontrado na Irlanda, ou talvez na Escócia. Talvez estivéssemos mesmo nas cercanias de Inverary Castle, ou talvez Dromoland. O fato é que brincávamos com uma bola de futebol e tudo estava iluminado.
[Corta]
Acontece que um sonho desses não cabe numa realidade como a nossa e para provar isso é só desmontar a cena e considerar os signos isolados:
O futebol é um jogo.
No jogo há disputa.
Disputávamos a bola, que no caso, era a razão.
Para manter “a bola”, escolhi pela defensiva (passiva?)
Ela - para roubar “a bola” - atacava. Chegava me puxar pelos braços, me dar típicos tapinhas (sim, aqueles pedalas) para me distrair.
Toda nossa relação foi uma disputa desenfreada. O sonho era pesadelo e o pesadelo é a realidade. Não se pode nem mais sonhar...
La pelas tantas a coisa estava meio maluca. Saí cambaleando de dentro da casa, dei três ou quatro passos em direção ao gramado e cai de joelhos. Ainda era concreto, não foi muito fácil perceber isso no momento. Balançando como um acrobata que pega impulso para o grande salto levantei e continuei meu caminho pelo quintal.
Parei ainda de pé e milagrosamente me virei para a casa deparando-me com uma daquelas cenas cômicas que não importa o quão mal se esteja você vai lembrar. Outro cara agachado em baixo de uma mesa esforçava-se para acreditar que um pedaço de mignon não era seu celular.
A Terra girava ferozmente. Você não faz idéia. Não demorou muito pra ela vencer. Caí de costas na grama. Tentei, não consegui levantar. Batalha perdida. Fiquei ali parado admirando o nada por algum tempo, em seguida como uma criança de 10 anos que cansou de perguntar para os pais quanto tempo de viagem ainda falta, revirei os bolsos procurando alguma coisa que me entretece. Qualquer coisa.
Foi quando o achei um cigarro, o último por sinal. Alguém havia levado seus irmãos num momento de descuido. Estava amassado, torto e tinha alguma coisa na ponta. Mas olhando-se fixamente ainda impunha respeito.
Perguntei para um besouro despreocupado se ele tinha fogo, indiferente saiu voando. Virei para o outro lado. Um grupo de garotas passava conversando alto, acho que iam embora.
- Já vão? Ainda é cedo.
- Aham... Com um ar de desdém.
- Por acaso nenhuma de vocês teria fogo para iluminar esta pobre alma perdida?
- Que? Perguntaram as quatro ou cinco garotas meio que ao mesmo tempo. Pensando bem talvez fossem duas.
- Fósforo!
- Serve isqueiro? Disse uma loira. E eu que pensava que era o rei das piadas ruins.
Ela então se aproximou e acendeu o isqueiro, eu não me movi, apenas sorri enquanto ela inclinava-se para animar meu amigo, o cigarro.
Deitei a cabeça novamente no verde e fiquei ali encarando as estrelas, estas que agora já estava praticamente todas encobertas pelas nuvens.
O jornal havia anunciado chuva e por mais que eu dissesse “Sem chance” enfim eles acertaram. Uma fina garoa que em pouco tempo já era grossa começou a cair. Não tentei levantar, alguns minutos depois podia sentir a água escorrendo em baixo de mim. O cigarro continuava queimando, a fumaça subia e se dissolvia numa dança suave em meio às gotículas que caiam. As pálpebras molhadas transformavam as luzes dos postes em cristais brilhantes. Finalmente havia eu tocado as estrelas?
Já estava me pondo a dormir quando uma luz vermelha que ia e voltava chamou minha atenção. Ficou muito mais fácil ver o que era quando a grande ambulância vermelha parou ao meu lado. De fato era natal. Talvez não fosse uma ambulância. Quem sabe fosse Papai Noel e era hora dos presentes.


Melhor que isso só Chico (o Buarque). Vou nem tentar me incluir na letra... é o melhor que posso fazer
Sometimes I can’t
Move my feet it seems
As if I’m stuck in the ground
Somehow like a tree
As if I can’t even breathe
And my screams come
Whispering out
As if nobody can even see me
Like a ghost
I can’t see myself sometimes
Then again if I were a king
If I had everything
If I had you
And I could give you your dreams
If I were giant size
On top of it all
Tell me what in the world
Would I sing for
If I had it
Sometimes I feel lost
As I pull you out like
Strings of memories
Wish I could weave them
Into you
And I could figure the
Whole damn puzzle out
But then again if
I were a king
If I had everything
If I had you
And I could give you your dreams
If I were giant size
On top of it all
Tell me then
What I would sing for
If I had it all
Ohhhhhhhh
I could take anything
If I had no greed to big
Just poison tainting the green
Remembering time
Much younger than me now
When my breath was light
When the world raised me kind
Here the mother comforts child
Every moment was waking up
But now I have grown tired
If I had it all
Oh I’d fuck it up sure
If I were a king
If I had everything
If I had you
And I could give you your dreams
If I were giant size
On top of it all
Tell me what in the world
Would I sing for
If I were a king
If I had everything
Piece by piece
If had you
If I could give you your dreams
If I were giant size
On top of it all
Then why in the world
Would I sing
If I had it all




Deitei a pouco e fiquei ouvindo o som. Imediatamente vieram imagens.
Não dá para ouvir bem, mas o som é este…
É algo como um roteiro de videoclipe que nunca será feito:
Homem de chapéu preto, camisa xadrez, calça jeans, botas de couro. Estilo country americano. Ele está andando por uma rua parecida com aqueles cenários de filmes Westerns. Casas de madeiras, uma lojinha ou outra. Há um carro velho estacionado em frente a um botequim. Ele para na entrada. Caminha até o balcão comprido. Fica olhando para o banquinho metálico com uma almofada vermelha, semelhante a couro vagabundo. Senta-se. Faz um sinal de “3” doses para o atendente grisalho de bigode.
Fica olhando o bigodudo servindo-o. É como se a cena fosse gravada uma vez, e editada em repetição. Ele coloca uma dose. Repete-se uma vez. Repete-se outra vez. O forasteiro pega o copo. Levanta-se, joga moedas no balcão. Vai até a porta. Um garotinho de uns cinco anos está recostado, com um chapelão que as abas fazem parecer sombrero apesar de ser um cowboy. Segura um canivete vermelho, como seu coletinho sobre a camiseta também xadrez.
O forasteiro sai do bar, mas para à entrada, olhando o garotinho. Seus momentos de reflexão são trocados pela dupla tocando a música no canto do boteco, onde alguns outros bêbados param assistindo.
Forasteiro mata a dose tripla num só gole. Larga o copo no chão, e toma posição para atacar o garotinho como brincadeira, que se inclina também. Joga o canivete de uma mão para a outra como um gangster. O forasteiro sorri, o garotinho lhe dá um golpe logo acima do joelho.
Ele cai. Mais pela surpresa do que pelo golpe. Rápidamente o garotinho arranca o canivete e dá outro golpe, agora no ombro. O forasteiro se estira no chão de madeira que se estende a um metro além da entrada do bar, segurando no local do segundo golpe, encolhendo os ombros. Surgem das laterais do boteco várias crianças que pegam seu chapéu e pertences de seus bolsos, enquanto outras o chutam, fazendo-o se encolher.
As crianças saem correndo. Ele fica um pouco no chão estirado. Depois se levanta. Entra novamente no boteco e senta-se novamente em frente ao balcão.
O bartender bigodudo olha-o com cara de “eu lhe avisei” e serve-o um copo.