La pelas tantas a coisa estava meio maluca. Saí cambaleando de dentro da casa, dei três ou quatro passos em direção ao gramado e cai de joelhos. Ainda era concreto, não foi muito fácil perceber isso no momento. Balançando como um acrobata que pega impulso para o grande salto levantei e continuei meu caminho pelo quintal.
Parei ainda de pé e milagrosamente me virei para a casa deparando-me com uma daquelas cenas cômicas que não importa o quão mal se esteja você vai lembrar. Outro cara agachado em baixo de uma mesa esforçava-se para acreditar que um pedaço de mignon não era seu celular.
A Terra girava ferozmente. Você não faz idéia. Não demorou muito pra ela vencer. Caí de costas na grama. Tentei, não consegui levantar. Batalha perdida. Fiquei ali parado admirando o nada por algum tempo, em seguida como uma criança de 10 anos que cansou de perguntar para os pais quanto tempo de viagem ainda falta, revirei os bolsos procurando alguma coisa que me entretece. Qualquer coisa.
Foi quando o achei um cigarro, o último por sinal. Alguém havia levado seus irmãos num momento de descuido. Estava amassado, torto e tinha alguma coisa na ponta. Mas olhando-se fixamente ainda impunha respeito.
Perguntei para um besouro despreocupado se ele tinha fogo, indiferente saiu voando. Virei para o outro lado. Um grupo de garotas passava conversando alto, acho que iam embora.
- Já vão? Ainda é cedo.
- Aham... Com um ar de desdém.
- Por acaso nenhuma de vocês teria fogo para iluminar esta pobre alma perdida?
- Que? Perguntaram as quatro ou cinco garotas meio que ao mesmo tempo. Pensando bem talvez fossem duas.
- Fósforo!
- Serve isqueiro? Disse uma loira. E eu que pensava que era o rei das piadas ruins.
Ela então se aproximou e acendeu o isqueiro, eu não me movi, apenas sorri enquanto ela inclinava-se para animar meu amigo, o cigarro.
Deitei a cabeça novamente no verde e fiquei ali encarando as estrelas, estas que agora já estava praticamente todas encobertas pelas nuvens.
O jornal havia anunciado chuva e por mais que eu dissesse “Sem chance” enfim eles acertaram. Uma fina garoa que em pouco tempo já era grossa começou a cair. Não tentei levantar, alguns minutos depois podia sentir a água escorrendo em baixo de mim. O cigarro continuava queimando, a fumaça subia e se dissolvia numa dança suave em meio às gotículas que caiam. As pálpebras molhadas transformavam as luzes dos postes em cristais brilhantes. Finalmente havia eu tocado as estrelas?
Já estava me pondo a dormir quando uma luz vermelha que ia e voltava chamou minha atenção. Ficou muito mais fácil ver o que era quando a grande ambulância vermelha parou ao meu lado. De fato era natal. Talvez não fosse uma ambulância. Quem sabe fosse Papai Noel e era hora dos presentes.


Final excelente.
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